Sonhei que havia passado por um procedimento cirúrgico e me queixava sobre a falta de tempo do médico nas consultas de retorno. Os encontros eram sempre muito rápidos e eu não conseguia falar sobre o que estava sentindo. Procurei uma outra médica e marquei uma consulta. O consultório parecia uma sala de algum reitor de alguma universidade gringa, toda no carvalho, daquelas bem conservadoras. A médica era rechonchudinha, branca, cabelos dourados, simpática. Me recebeu muito bem, deu bom dia e perguntou se eu era mesmo quem eu era. Pediu para que sentasse na cadeira que, quando olhei, era um divã de veludo vermelho. Ela olhou minha ficha e nós começamos a conversar, conversar, conversar e conversar. Ela contou algumas histórias alegres e muitas histórias tristes. Nós conversamos tanto que eu já estava quase cochilando, mas ainda a escutava, com os olhos fechados e acenando com a cabeça. Até o momento que dormi mesmo. Acordava, dormia, acordava, dormia e ela continuava contando histórias. A médica levantou da cadeira que ficava atrás da mesa, me acordou, enxugou uma lágrima dos olhos e disse:
- Parece que essa foi a única lágrima que você me deu.
Ela foi até a estante cheia de livros de medicina e acionou um compartimento secreto. Eu pensei que ela iria revelar alguma ferramenta de tortura ou algo do tipo. O compartimento começou a descer lentamente revelando duas imagens sagradas: Jesus Cristo crucificado e a de Nossa Senhora Aparecida. Eu fui tomado por um arrepio e um choro descontrolado enquanto ela dizia:
- Mas não tem problema, com o sagrado tudo se paga.
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